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Entrevista: Como a maior fintech da Europa quer dominar o mercado brasileiro

Em entrevista exclusiva, Glauber Mota, CEO do banco no Brasil, revela os bastidores e a ambição da operação do Revolut no Brasil

No fim de novembro, um banco nascido na Inglaterra passou a dominar as manchetes de negócios no Brasil e no mundo. O gatilho foi uma rodada que avaliou a empresa em US$ 75 bilhões — e que contou, inclusive, com a participação do braço de venture capital da Nvidia.

Esse banco é o Revolut, uma fintech com 65 milhões de clientes ao redor do mundo e presença em dezenas de países. No Brasil, a empresa tem ambições grandes e acelera sua expansão em um dos mercados mais competitivos do sistema financeiro.

Para entender como o Revolut está crescendo por aqui e qual é a visão da companhia para o país, o the biz conversou com Glauber Mota, CEO do Revolut no Brasil. A seguir, você confere a entrevista completa com os bastidores e a estratégia do banco no mercado brasileiro.

the bizness: O que é a Revolut e qual o seu diferencial em relação aos bancos digitais tradicionais?

Glauber Mota: A Revolut nasceu com uma ambição bem clara: construir o primeiro banco verdadeiramente global do mundo. Em vez de criar versões locais de um mesmo produto, operamos tudo em uma única plataforma tecnológica, que funciona como se fosse um banco local em cada país onde estamos. Isso significa que qualquer pessoa pode controlar toda a sua vida financeira, do dia a dia ao crédito ; do câmbio aos investimentos; em um só lugar, sem fronteiras e sem complexidade. É isso que nos diferencia dos bancos digitais tradicionais. Eles operam com foco local ; nós operamos com um modelo global, com produtos que conversam entre si e ganham escala a cada novo país. O crescimento em um mercado fortalece todos os outros, como uma rede global que se retroalimenta.

No Brasil, chegamos em 2023 com nossa conta multimoeda, disponível 24/7, com taxas competitivas e uma experiência ultra simples. Hoje já evoluímos para o modelo que chamamos de “local + global”: conta em reais, cartão local, investimentos e novos produtos, tudo dentro da mesma plataforma.

TB: O que fez o Brasil se tornar prioridade na expansão global da Revolut?

GM: O Brasil reúne características muito únicas, como um ecossistema digital extremamente avançado, consumidores abertos e rápidos na adoção de novas tecnologias, e um volume muito relevante de viagens e transações internacionais. Para uma empresa global, esse é o ambiente ideal para escalar soluções já testadas lá fora e, ao mesmo tempo, experimentar coisas novas. Além disso, o país conta com uma regulação madura, que permite inovação com responsabilidade. É um mercado desafiador, mas onde a inovação de qualidade realmente prospera e, por este motivo, tornou-se prioridade para nós.

Adicionalmente, o Brasil é referência em infraestrutura moderna de pagamentos, como o PIX e o Open Finance. Essas evoluções, alinhadas à experiência global da Revolut, criam oportunidades para desenvolver produtos ainda mais inovadores, com valor tangível para o cliente.

TB: Depois de dois anos no país, o que mais surpreendeu vocês no comportamento do usuário brasileiro?

GM: O que mais nos surpreendeu foi a velocidade. O brasileiro testa, aprende e adota muito rápido quando vê valor real. Isso ficou claro na tração orgânica da nossa conta global e na aceitação dos nossos planos de benefícios. A Revolut sempre esteve bem posicionada para clientes que fazem viagens, câmbio e remessas internacionais. Também nos chamou atenção a demanda crescente por produtos mais sofisticados, especialmente em investimentos internacionais.

Existe uma busca clara por autonomia financeira global, que combina muito com o nosso propósito e com o tipo de cliente que queremos atrair. Conseguimos fazer isso com uma experiência de usuário simples e acessível, proporcionando ao brasileiro a mesma experiência do cliente no exterior.

TB: A Revolut começou com foco global e hoje oferece conta em reais, cartão local e novos produtos. O que mais acelerou essa expansão?

GM: O nosso plano sempre foi trazer para o Brasil o mesmo portfólio de produtos que temos disponível na Europa. A oportunidade para produtos que entregam uma experiência financeira moderna, integrada e transparente sempre existiu. Decidimos entrar no Brasil primeiro com a nossa conta global, pois havia uma grande chance de nos diferenciarmos rapidamente nesta categoria. Depois, lançamos a conta local, totalmente integrada com a conta global, no mesmo aplicativo. Lançamos os planos por assinatura com benefícios variados para os clientes, iniciamos os primeiros testes com o nosso cartão de crédito e ainda vamos lançar muitos novos produtos no mercado.

A premissa agora é continuar melhorando a nossa conta global, com mais opções de investimento no exterior, e evoluir a nossa oferta local também. Nossa ambição é estarmos entre os top aplicativos financeiros que as pessoas utilizam no mundo, e essa também é a meta para o Brasil. Como exemplo, a adoção do PIX como método de pagamento impressionou até nossos colegas do time global pela velocidade.

TB: O cartão de crédito está em teste com apenas usuários convidados. O que vocês estão tentando entender, e qual é a expectativa para o lançamento geral?

GM: Quando anunciamos em abril a fase de testes do cartão de crédito, queríamos observar como ele se comporta no uso cotidiano e como ele convive com a experiência completa da conta, incluindo câmbio, pagamentos e demais produtos. Também estamos analisando perfis de risco e as preferências de crédito para ajustar limites, benefícios, modelo e experiência. O objetivo é lançar o produto de forma transparente e simples, com vantagens competitivas e benefícios claros — exatamente como os usuários já conhecem A Revolut. Embora ainda seja cedo para confirmar datas, os testes estão caminhando de forma muito positiva e muito em breve teremos novidades. Além de refinar o motor de aprovação de crédito, queremos fazer uma expansão mais robusta quando os cartões de crédito com benefícios premium estiverem devidamente implementados, para entregar valor tangível aos nossos clientes.

TB: O Brasil tem virado um “laboratório” dentro da Revolut. Algum produto já nasceu aqui antes de ir para outros países?

GM: Alguns produtos que são específicos do Brasil, como o PIX, trouxeram uma experiência de adoção rápida e relevante, como mencionado acima. Isso se dá pela facilidade de uso, 24/7, instantâneo e com pouca fricção para o cliente. Essa experiência é muito alinhada com a experiência de transações P2P (peer-to-peer) que a Revolut proporciona em diversas moedas estrangeiras, com baixo custo, também 24/7 e instantâneas. A junção dos produtos proporciona uma experiência semelhante ao PIX global para o cliente. Queremos aprofundar nesse conceito para expandir ainda mais as possibilidades.

Todos os produtos e o respectivo comportamento do cliente são estudados para priorizarmos a implementação. A Revolut tem muita experiência no mundo de criptoativos, e agora, com a nova regulamentação aprovada recentemente pelo Banco Central, queremos estudar a melhor maneira de trazer o que a Revolut já faz no exterior e melhorá-la no Brasil, à luz da nova regulamentação.

TB: Qual é o tamanho da equipe e como funciona a dinâmica da divisão brasileira?

GM: Hoje temos um time multidisciplinar que reúne produto, engenharia, dados, compliance, operações, growth e comunicação. Operamos como um hub híbrido: completamente integrado à estratégia global, mas com autonomia para adaptar e criar soluções específicas para o Brasil. Essa combinação - global na visão, local na execução - tem acelerado muito nossa operação e é uma das razões pelas quais o Brasil se tornou um dos mercados de crescimento mais rápido dentro do grupo. Temos duas entidades no Brasil: a instituição regulada pelo BC e uma empresa de tech, com serviços compartilhados, que somadas já ultrapassam a marca de 200 pessoas, demonstrando que o Brasil vem se tornando um hub de talentos para a Revolut global.

TB: Que produtos globais vocês ainda querem trazer para o Brasil?

GM: Nosso pipeline é extenso e o Brasil está no centro dessa expansão. Os produtos mais pedidos incluem uma oferta mais completa de investimentos, soluções de gestão de patrimônio global e mais ferramentas de pagamentos e crédito, além de funcionalidades da nossa plataforma Business, um produto voltado para o mercado B2B. A lógica é simples: tudo que faz sentido localmente e que traga mais eficiência ou autonomia para o usuário brasileiro entra na nossa lista de prioridades. Em especial, temos um entusiasmo com a oferta do cartão mais premium da Revolut, o Ultra, que traz benefícios até superiores aos cartões premium tradicionais do mercado brasileiro.

Para conferir o LinkedIn do Glauber, clique aqui.